Chupetas e mamadeiras: o eterno dilema teoria x realidade

*Texto republicado com autorização da autora

Chupetas e mamadeiras: itens indispensáveis na vida de qualquer mãe, esses apetrechos viraram ícones representativos do bebê na sociedade moderna. Estampam álbuns de maternidade, livros e sites sobre o tema e, invariavelmente, consomem grande parte do orçamento do enxoval. Certo? Nem sempre!


Usar bicos artificiais pode parecer, para muitos, uma opção natural. Como assim criar um bebê sem chupeta ou mamadeira? O que ele vai sugar quando estiver irritado? Como darei meu leite quando não estiver disponível? Como vou oferecer o complemento que o pediatra recomendou? Como vou administrar a água ou outros líquidos após a introdução alimentar? Pois saiba que não precisa ser assim. Bebês podem, sim, sugar o seio para confortar-se, ou eventualmente sugar o dedo de um adulto, ou encontrar o seu para puro deleite. E podem, é claro, encontrar outras formas de conforto conforme vão crescendo. E para administrar leite fora do peito temos os copinhos, fechados ou abertos, que apresentam menor perigo de desmame. Para ofertar complementação sem que o bebê precise sair do peito nem conheça outros bicos, temos a técnica da relactação. E conforme o bebê vai crescendo, temos os canudos, é claro. No entanto, muitas vezes é difícil vencer o preconceito. É difícil tentar fazer diferente quando somos massacrados pelo senso comum, pela opinião alheia, pela avalanche cultural que determina: bebê precisa de chupeta e mamadeira.


É possível viver sem. Talvez vá precisar de um pouco mais de disponibilidade, de investimento, de ouvido de mercador, de confiança, mas é possível, lhes garanto. Mesmo com um bebê sugador? Sim, é possível. O que resta saber? Se é possível para aquela mãe. É preciso entender que há uma distância abissal entre a teoria e a realidade de muitas famílias, e que reconhecer esse limite não é classificar decisões entre certas e erradas. É simplesmente desenvolver uma atitude empática em relação aos caminhos que cada mãe escolhe percorrer. Sem dúvida, cada uma delas escolhe o que cabe melhor ao seu dia a dia, à sua disponibilidade e às suas crenças e convicções.


Sim, porque quando estamos no campo da teoria, evidências científicas estão aí para nos comprovar o que é melhor em termos de saúde. E quanto a isso não restam dúvidas: bicos de qualquer espécie atrapalham o desenvolvimento do bebê e geram inúmeras repercussões na saúde oral, respiratória, na fala e mesmo na demonstração de expressões faciais. Resta saber o que funciona melhor para cada família. Em termos práticos: cada um sabe onde seu calo aperta.


Qual o nosso papel então, enquanto profissional que apoia e promove a amamentação? Disseminar informação. Desconstruir o que é incutido diariamente por meio da propaganda e da mídia na cabeça do público. Fazer entender a toda a família que é possível criar um bebê sem esses apetrechos e que eles podem, em curto prazo, atrapalhar a história de amamentação e estimular um desmame bastante precoce. De resto, entendo que cabe a cada família fazer sua escolha.

(última mamada do Henrique, aos 7 meses e 26 dias. Na época eu desconhecia uma maternidade sem chupetas nem mamadeiras e tinha zero informação. Já contei nossa historia neste post aqui)


Não sejamos tolos, ingênuos, e não tapemos o sol com a peneira: cada família fará o que lhe parecer melhor, possível e suficiente, em meio à loucura que é adaptar-se à chegada de um bebê. E, para alguns, isso vai envolver, necessariamente, o uso desses apetrechos. Saibam que isso não impede a amamentação. Mas pode atrapalhar o percurso e impor desfechos nem sempre desejados. Tendo dito isso, me sinto confortável o bastante em dizer: não existe escolha sem informação. E, é claro, jamais recomendaria a uma gestante que colocasse esse tipo de produto no seu enxoval. No meio do furacão do puerpério é bem fácil ceder a pressões ou dar um rim por mais cinco minutinhos de sono. Seria mais ou menos como tentar recusar doces numa visita a uma fábrica de chocolate depois de um mês de dieta! No entanto, nesse momento de piração, ninguém lembra que abusar da chupeta pode fazer com que o bebê venha menos ao seio e ganhe menos peso, ou que usar com muita frequência uma mamadeira pode fazer com que ele desista, em poucos dias, de esforçar-se para ordenhar seu seio. E que se parece difícil que a amamentação se estabeleça com prazer e naturalidade nos primeiros dias, tirar uma chupeta ou uma mamadeira da vida de uma criança maiorzinha também pode ser bastante complicado. “Não existe almoço grátis!”, diz a célebre frase.


Costumo dizer que oferecer os bicos atende mais às necessidades das famílias do que dos bebês: é como dar aos bebês algo que eles não precisam naquele momento, porém, uma vez oferecido, torna-se algo indispensável. Já passou pela experiência de ter em sua conta bancária um valor depositado que você não sabe de onde vem e muito menos se lhe pertence, mas uma vez impresso no extrato bancário você faz inúmeros planos de como usar a quantia? E a tenebrosa sensação de receber a ligação pedindo o estorno do depósito incorreto… Uma comparação extrema – e sem graça para muitos – que ilustra simplificadamente como um objeto desconhecido torna-se algo de extremo valor na vida de uma criança.


Só me cabe, para finalizar, deixar uma dica: invista em informação de qualidade, ainda no pré-natal, caso amamentar seu bebê seja importante para você. Saiba distinguir o que está dentro da normalidade ou não em relação aos primeiros dias e o primeiro mês de vida de um recém-nascido, para ficar mais tranquila em relação às suas escolhas, quaisquer que sejam elas. Seja mais realista e menos otimista em relação às expectativas de um bebê que é amamentado exclusivamente: dorme-se muito pouco, chega-se ao extremo do cansaço e esgotamento, pode ser massacrante, entediante e, muitas vezes, não ter nem um cheirinho daquele ambiente de comercial de margarina que o cinema e a TV insistem em nos vender diariamente. Ainda assim, pode valer muito a pena!


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Bianca Balassiano Najm é psicóloga e consultora de amamentação IBCLCE.

Ela atende no Rio de Janeiro e anda pelo Brasil dando cursos de formações de profissionais.

Você pode encontrar mais sobre o trabalho dela aqui.

É minha mestra, minha amiga!

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