Síndrome de Raynaud ou Renato Russo tinha razão: “é uma dor que dói no peito”...


Amamentar não deveria doer. Mas também não podemos mentir, mesmo com a pega boa, posicionamento correto, frênulo lingual soltinho, lá no início você vai ter desconforto, porque é uma área que nunca foi tão usada na vida (nem naqueles meses iniciais de namoro, hihihih).

Pra grande parte das sortudas, passado este comecinho muitas vezes conturbado, a coisa flui maravilhosamente bem. Para outras, começam alguns problemas: ingurgitamentos mamários, mastite, candidíase e Síndrome de Raynaud. O quê?

Figura 01: Relação entre tipos de dor mamilar. Extraído de Abrantes et al. (2016).

É uma isquemia (interrupção de sangue) no mamilo, causada por vasoespasmo (contração dos vasos sanguíneos). Costuma ser desencadeada pelo frio, compressão anormal do mamilo na boca da criança, trauma mamilar (como fissuras e até candidíase) ou estresse emocional, mas muitas vezes não se define a causa. Diferente da dor da candidíase, que é crônica e descrita como se tivessem agulhas/lâminas saindo no lugar do leite, e coceira nos mamilos, a Síndrome de Raynaud é uma dor aguda, geralmente depois da mamada, ou durante, no seio oposto, que vem vindo até ficar insuportável, e passa, mas pode durar de minutos até horas.

Se observarmos o mamilo durante a crise, veríamos um comportamento trifásico: o mamilo fica pálido (branco), a dor aumenta e ele fica arroxeado/azulado (cianótico) e à medida que a dor passa, ele assume um tom rosado/avermelhado (quando o sangue retorna ao local).

Figura 02: Mudança na coloração do mamilo durante a crise: de pálido passa a arroxeado e, posteriormente, quando o fluxo sanguíneo é reestabelecido, avermelhado.

Como diagnosticar essa síndrome, sem confundi-la com candidíase, por exemplo:

Figura 03: Fluxograma de diagnóstico de Síndrome de Raynaud mamilar. Modificado de Barret et al. (2013).

Abrantes et al. (2016) propõe uma metodologia de diagnóstico empírica (e que deve ser bem dolorosa, caso seja mesmo este fenômeno, veja na Fig. 04): colocar compressas frias sobre o mamilo! Os autores descrevem que “procedeu-se a um teste de provocação, através da colocação de uma compressa umidificada com água fria sobre o mamilo. Durante a realização do teste houve o desencadear da dor, embora com menor intensidade e, no instante após a remoção da compressa, observou-se descoloração (palidez) do mamilo, seguida de hiperemia”

Figura 04: Teste de provocação realizado por Abrantes et al. (2016). Em A observa-se a palidez e em B, o rubor.

Depois de realmente diagnosticada a Síndrome de Raynaud (e uma consultora experiente talvez tenha mais facilidade que um obstetra, por exemplo), o manejo está associado ao tratamento da condição básica que dispara o gatilho do vasoespasmo. Caso não seja possível identificar, buscam-se algumas destas alternativas para lidar com o desconforto:


- assim que o bebê soltar o seio, cobri-lo, para que não fique exposto ao frio;


- ordenhar um pouco antes de amamentar, para iniciar o reflexo de ejeção do leite;


- iniciar a amamentação na mama menos sensível;


- aplicar compressas mornas (saquinhos de ervas que aquecem no micro-ondas são ótimos);


- tomar vitamina do complexo B, sendo necessário 100mg/dia da B6. Se não funcionar dentro de uma semana, provavelmente não funcionará, mas não fará mal algum. Não há evidências científicas do funcionamento, somente empíricas. Se ficar sem dor por duas semanas, tente retirar a vitamina, se a dor voltar, volte a tomar;


- evitar o frio, então busque roupas com abertura frontal, para que o outro seio mantenha-se coberto;


- evitar substâncias que causem vasoconstrição, como medicamentos em sprays, café, cigarros e descongestionantes nasais;


- usar analgésico/antiinflamatório (tipo Ibu*******) compatível com amamentação;


Se, mesmo usando estas medidas, a dor seguir insuportável, existem medicamentos usados em problemas cardíacos, como a Nife******** (bloqueadores dos canais de cálcio, que atuam para controlar as dores das anginas) que funcionam super bem e também são compatíveis com a amamentação. Para muitas mulheres é importante oferecer um tratamento que alivie rapidamente a dor para que possam continuar com sucesso a amamentação. Num estudo realizado na Califórnia, seis mulheres com dor associada à Raynaud tomaram esses medicamentos e tiveram alívio imediato, tendo apenas uma relatado efeitos colaterais (diminuição de pressão e sintomas associados). Procure seu GO e discuta essa possibilidade. O medicamento custa em torno de 30 reais a caixa, nas farmácias comuns e em torno de 11 reais, se for manipulado.

OBS: por princípios éticos, não citarei o nome dos medicamentos sugeridos, mas todos são facilmente encontrados nas referências bibliográficas citadas. De qualquer forma, a automedicação é um problema grave, ainda mais quando concerne às lactantes. Não tome remédios sem conhecimento e acompanhamento do seu médico de confiança.

DEPOIMENTO DE QUEM PASSOU POR ISSO:

"Nós e a amamentação com o fenômeno de Raynaud. Maria Flor completa 24 dias hoje. Os 24 dias mais cheios de amor e intensidade da minha vida. Mas também dias superando as dificuldades com a amamentação. Logo na primeira semana da Maria tive que lidar com uma candidíase mamária. Pra quem já passou por uma candidíase amamentando eu quero dizer: dá cá um abraço! Dói!! Dói muito!!! Superamos a candidíase com ajuda de três profissionais que trabalham com amamentação (Camilla, Carol e Fernanda). Na sequência da candidíase veio ele, o fenômeno de Raynaud. Quem levantou a possibilidade de ser esse tal fenômeno foi a Camilla, minha doula, EO, consultora em amamentação, amiga e mana de lutas.

Embora eu trabalhe indiretamente também com amamentação, nunca tinha ouvido falar de Raynaud nas mamas, em decorrência da amamentação. Pra mim continuava a ser a candidíase. A dor é praticamente a mesma, aquela que irradia pelo seio, como fisgadas ou queimação, que alcançam até as axilas. Uma alteração que não havia percebido é que meus mamilos, após as mamadas, ficam esbranquiçados e a dor só inicia depois das mamadas (escrevo no presente porque ainda estamos lidando com isso). Assim que a Camilla me falou a respeito fui pesquisar na internet e me deparei com um texto que descrevia o fenômeno. Batata!! Era exatamente aquilo. Um alívio de certa forma porque o tratamento é diferente do tratamento da candidíase. Os peitos que estavam pendurados pra fora há mais de uma semana, ventilando, sempre com pomadas - inclusive com corticoide -, agora precisavam estar recolhidos e aquecidos (acabou o Carnaval!). É isso mesmo, os peitos precisam estar aquecidos pra evitar a dor. Então parti pras compressas quentes depois das mamadas (atenção! apenas nos mamilos, não no peito inteiro) o que interrompe imediatamente o ciclo dos espasmos de dor. Um alívio enorme!

Já são algumas semanas lidando com esse tal Raynaud, que apesar do nome chique é um saco!! Acredite, a dor faz a gente viver momentos de muita frustração. Ninguém merece amamentar com dor. É horrível! E não é pouca dor, não. É muita… Sou bastante resistente aos tratamentos alopáticos, mas depois de muito conversar com minhas queridas manas (as três citadas ali em cima) acho que está na hora de me render: betabloqueador de cálcio, lá vamos nós!


São 24 dias junto do amor mais genuíno e profundo, minha Maria Flor. Dias de puerpério, o que por si só já não é fácil. O humor oscila, os sentimentos são intensos, o cansaço é grande, mas o amor transborda. Amiga, chega mais, esteja cercada de apoio no seu pós-parto. Você pode não ter candidíase e Raynaud (e eu desejo profundamente que você não tenha), mas você terá o puerpério. Puerpério sozinho requer apoio e acolhimento. Puerpério, mais a amamentação e complicações requerem apoio profissional. Procure uma consultora ou banco de leite (e aqui eu sugiro que seja independentemente de haver complicações, antes que alguma se estabeleça... vai ser melhor), esteja cercada de pessoas que irão compreender suas oscilações e só faça aquilo que você realmente queira fazer. Por aqui nada de visitas e saídas de casa. Estamos no ninho, resilientes, nos conhecendo e estabelecendo nossa simbiose. Acredito que isso seja necessário e imprescindível nesse momento. Maria precisa de mim integralmente e eu preciso atar nossos laços. As coisas já estão muito melhores agora, mas muito disso é fruto do apoio que tivemos. Mesmo estando inserida nesse universo, enquanto doula, ter apoio profissional foi fundamental. Profissionais da amamentação: vocês são foda!!!!

Minha gratidão profunda e muito amor às minhas bases nesse processo: meu companheiro Chico, minha mãe Dorli e às manas Camilla, Fernanda e Carol. Sem vocês seria muito mais difícil. E aqui uma ressalva: procure uma boa consultora. Tem muita gente por aí, fazendo nome com práticas desatualizadas. Fique atenta! Procure também os grupos de apoio virtuais, são ótimos. Me senti muito acolhida em um deles num dos momentos mais intensos desse processo. Foi como um abraço coletivo das manas, bem quentinho. Redes de apoio na maternagem, eu amo!!

Cris Plantão Materno, gratidão pelo enorme esforço de trazer informação de qualidade sempre, num papo reto, direto e sem frescura."


Cris Da Ros é mãe da Maria Flor, nascida num lindo parto domiciliar planejado em 21/6/2016 . Além disso, é doula em Florianópolis, fundadora da Casa Gestar – acolhimento em movimento (https://www.facebook.com/Casagestar) e coordenadora do Grupo Gestar – apoio à gestante (https://www.facebook.com/gestarfloripa), núcleo Sul, em Floripa.

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Bibliografia consultada:

Abrantes et al. Fenómeno de Raynaud do mamilo em mulheres a amamentar: relato de três casos clínicos. Rev Port Med Geral Fam: 32:136-42. 2016. Disponível em: file:///C:/Users/User/Downloads/11738-12468-1-PB%20(2).pdf. Acessado em 15/07/2016 às 11:20h.


Anderson JE, Held N, Wright K. Raynaud’s phenomenon of the nipple: a treatable cause of painful breastfeeding. Pediatrics, 2004;113:e360-4.


Atualidades em Amamentação. IBFAN, nr. 39. 2006. Disponível em http://www.ibfan.org.br/documentos/aa/aa39.pdf, acessado em 15/07/2016 às 10h30min.


Barrett ME, Heller MM, Stone HF, Murase JE. Raynaud phenomenon of the nipple in breastfeeding mothers: an underdiagnosed cause of nipple pain. JAMA Dermatol. 149(3): 300-6. 2013.


Fenômeno de Raynaud. SAÚDE DA CRIANÇA Aleitamento Materno e Alimentação Complementar: Cadernos de Atenção Básica, nr 23. 2015. 23. Ministério da Saúde, 2ª. Ed. pag. 60. 2015.


Giugliano, E.R.J. Aleitamento Materno: principais dificuldades e seu manejo. pg. 254 – 267. In: Duncan et al.. Medicina Ambulatorial - Condutas de Atenção Primária Baseada em Evidências. Artmed. ISBN 9788536326184, 2013.


Newman, J. Vasospasm and Raynaud’s Phenomenon. Disponível em: http://nbci.ca/index.php?option=com_content&view=article&id=52:vasospasm-and-raynauds-phenomenon&catid=5:information&Itemid=17. Acesso em 15/07/2016 as 09:26.

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