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A solidão da mãe

Querido diário: eu me sinto muito só.

Logo que engravidei, recebia muitos cuidados na fase dos enjôos, do sono. Todo mundo me fazia coisas gostosas, afinal gestante precisa se alimentar bem. A barriga cresceu, e as pessoas sorriam pra mim na rua. Que sensação de poder era aquela?


No final, comecei a antever o que viria pela frente. Todo mundo se achava no direito de se meter na minha escolha de parto. Passaram a me tratar como uma bomba relógio estúpida, onde apenas o bebê importava e eu era apenas um invólucro. Passadas as 38 semanas, ninguém mais me perguntava como eu estava, mas sim quando o bebê nasceria. Até que ele nasceu. Todo mundo querendo vê-lo. Presentes, roupas, fraldinhas. Ninguém lembrou de mim, eu adoraria ter ganhado algo também. Parece que não tenho importância. Aliás, me sentia como uma grossa, como se fosse a pior pessoa do mundo quando pedi que ligassem antes de visitar, ou quando me retirava da sala com o bebê para ter sossego. No dia que virei mãe me obrigaram a aceitar qualquer coisa, mesmo que custasse as minhas vontades.


Eu sentia fome sempre, e tinha que implorar por comida: ninguém lembrava que amamentar gasta muitas calorias, e aquelas mesmas pessoas que me faziam comidinhas gostosas quando eu estava grávida iam me visitar, pra ver o bebê, é claro, esperando que EU SERVISSE o café da tarde.


E quando eu amamentava? Meu deus, quanta solidão. Sabe, diário, amamentar não é mais instintivo e natural. É uma construção social que precisa de muito apoio. Mas sendo eu filha da geração do leite de lata, querer amamentar meu bebê me deixou na trincheira. Nunca ouvi tanto pitaco não solicitado. Quando meu bebê chorava, as pessoas, tão "solícitas", sugeriam mamadeiras e chupetas. Eu não queria dar mamadeira e chupeta, eu queria dar o peito em paz. Cada vez que eu dizia isso, parecia que eu estava declarando que odiava meu filho, porque a cara das pessoas era de horror. E os comentários "inocentes", do tipo: de novo mamando? Ou aquele pior ainda, que a pessoa faz vozinha de criança, tipo assim: "óin, dá uma chupetinha pro nenéim, dá mamain".. Eu odiava. Me sentia muito, muito sozinha. Parece que virei, novamente, aquela bomba. Ninguém me escutava, mas todo mundo queria mostrar como eu era péssima mãe querendo alimentar meu filho, afinal, a fulana deu nan e beltraninha não morreu.


Então, querido diário, quando eu virei mãe, eu me senti a mais sozinha das criaturas. ninguém mais me enxergava, era só olhos ao bebê. É claro que eu acho lindo o amor que ele recebe, mas precisavam demonstrar esse amor pisando nos meus sentimentos? Eu sinto, diário, que a maioria das mães se ressente com a maternidade não por não gostarem de seus filhos, mas por não gostarem do que a sociedade faz com as mães. Eu me lembro de ler, quando estava grávida, uma frase que dizia: "amo meus filhos, mas odeio ser mãe" e eu ficava cho-ca-da. Hoje em dia, diário, eu a entendo super bem.


Todos os dias preciso PROVAR que estou fazendo o melhor pros meus filhos. Todos os dias eu preciso PROVAR que estou ciente de minhas decisões. Todos os dias me obrigam a CEDER em minhas vontades, com a desculpa de que estão pensando no bem de todos. Sabe o que aprendi, diário? Que ser mãe é ser mais sozinho que operador de farol. Sabe aqueles filmes da Netflix que tem o operador de farol mais triste e solitário do mundo? Esse sou eu. Aprendi, com a maternidade, que ser mãe é o degrau mais baixo da sociedade, não temos direito a nada, nem a nossa própria voz.


É, diário, eu amo meus filhos, mas não gosto de ser mãe. Sabe por quê? Porque estas mesmas pessoas que dão conselhos, que me agridem, que me atropelam são as mesmas que não me ajudarão a criá-los quando eles forem maiores, e que me culparão por todas as merdas que acontecerem pelo caminho. Hoje, diário, eu me sinto muito só.

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